domingo, 9 de fevereiro de 2014

Me formei, e agora?

Aô, gataiada!

Antes que vocês achem que isso aqui é um desabafo dado os inúmeros recém-formados desempregados que eu conheço, deixa a tia explicar: não é nada disso. Tão rolando essa semana dois compartilhamentos virais no facebook, o da professora que desdenhou do mal vestido no aeroporto e esse texto do Matheus Pichonelli que fala sobre como o fato de estar em uma Universidade é visto como fazer parte de uma elite. Achei que fosse meu dever de formanda falar algo a respeito.

A vida toda meus pais fizeram inúmeros sacrifícios para manter eu e meus irmãos em boas escolas. A frase sempre era: podem te tirar tudo na vida, menos o conhecimento. Meus pais sempre tiveram uma vida apertada pra nos proporcionar apenas estudar. Nós três ingressamos em universidades públicas, nem prestamos as particulares porque não haveria condição de financiar três cursos superiores.

Meu pai não concluiu os estudos. Minha mãe fez o magistério na adolescência e só foi fazer a tal da Pedagogia depois, quando eu já tinha 11 anos. Então na cabeça deles (e na de todo mundo) nós tínhamos que estudar, pois só assim teríamos um bom emprego, um bom salário e uma vida melhor. Estudamos em ótimas escolas, então tínhamos que entrar na Universidade, em uma boa Universidade.

Eu não sei o que se passava na cabeça dos meus pais, se eles queriam que fôssemos apenas parte da chamada 'elite' que é capaz de frequentar a Universidade e portanto, diferente dos demais, ou se eles queriam que a gente mudasse o mundo. O que eu sei é: eu não entrei na Universidade a passeio, mas não sei se tenho forças pra mudar o mundo. Mudar o mundo ao meu redor e a minha realidade já me deixaria feliz.

Enfim, o que eu quero dizer com tudo isso? Que a cultura do Brasil impõe que só é bom quem fez curso superior. Você tem que  fazer Faculdade senão não será ninguém na vida. Resultado? Esse monte de UniEsquina que conhecemos por ai, que você literalmente compra seu diploma (um milhão de parêntesis aqui, não estou generalizando as universidades particulares, e sim as universidades ruins!!). Bons profissionais formados é ooooooouuuutra história. Sem falar nos técnicos, ou aquelas profissões que não precisam de formação superior que não são valorizadas no mercado de trabalho.

Dessa forma, a faxineira, o pedreiro, o pintor, a lavadeira, a camareira, o garçom e muitos outros são sempre vistos como aqueles que 'não conseguiram nada melhor porque não estudaram'. A grande questão é que esse pensamento coloca a Educação como uma ferramenta de distinção na Sociedade e não de transformação da Sociedade. Muitos se lançam na aventura do curso superior - e isso independe se a universidade é pública ou privada, se tem nome ou não tem - apenas com o propósito de estar entre os chamados 'privilegiados', ao invés de ter em mente que o conhecimento que você está tendo o 'privilégio' de adquirir é que pode mudar a Sociedade.

E esse sistema de castas implícito cria pessoas como a geração Y, que acha que a obrigação das empresas é ver as suas infinitas formações, seus cursos de línguas e viagens ao exterior como critério pra acreditar que ele é o melhor profissional do mundo, mesmo não tendo 6 meses de experiência fora da Universidade. Cria pessoas como a professora que compara o aeroporto a uma rodoviária só porque o cara estava 'mal vestido'. No mínimo ela acha que voar 'não é pra quem quer, é pra quem pode'. Ela se acha superior, diferente dos mortais que não são privilegiados como ela. Afinal, qual é o fundamento de ela ter estudado tanto para poder andar de avião se a faxineira também pode, né?

E estamos num looping infinito, numa situação que está muito longe de mudar. E é muito contraditório, pois é gritado aos quatro ventos que o grande problema do Brasil é a falta de investimento na Educação, que só a Educação pode mudar a merda que é esse país, enquanto aqueles que tem acesso à ela, aqueles cuja missão era mudar os resquícios de uma Sociedade criada pela ignorância, empunham seus diplomas apenas para lembrar aos demais que ele é um vencedor, e pra que ele seja um vencedor, deve haver perdedores.



Era isso, meu povo, espero que vocês gostem da reflexão! Aguardo seus comentários! Besos.