Se não, você tá de pa-ra-béns.
Olá pissoas confinadas desse meu Brasil varonil! Cês tão batendo bem da cabeça ainda?
A minha quarentena começou há quase um mês. A empresa onde trabalho decidiu que todos os funcionários possíveis trabalhariam de casa e o restante se revezaria. Antes que você nos julgue, estamos na cadeia de alimentos, então parar completamente está fora de cogitação.
Nesse tempo eu já vi gente fazendo treino em casa (fisioterapeutas, se preparem, depois que tudo voltar ao normal vocês terão trabalho de sobra), gente fazendo cursos novos, aprendendo um novo hobby, reformando a casa, aproveitando o tempo "livre" para ser o mais produtivo possível. E isso é definitivamente uma merda.
De uma hora pra outra todo mundo virou blogueiro de produtividade, esfregando na cara dos mortais que sairão da quarentena o Chuck Norris da gestão do tempo. Deuzolivre. E eu me pego pensando, ou eu tô fazendo tudo errado, ou esse pessoal realmente é diferenciado. Trabalhando em casa eu sinto que trabalho o dobro, tem dias que é o VPN da empresa que sobrecarrega, tem dias que a internet de casa não funciona, tem dias que você manda um email e entra em oração, simples assim. Tem dias que você quer levantar, sacodir a poeira, colocar uma roupa bonita, passar um batom e entregar todas as pendências que precisa. E tem dias que até tirar o pijama é uma tarefa difícil. E TÁ TUDO BEM, MEU POVO.
A carga física e mental do tal home office, somada ao contexto que estamos vivendo, faz a gente chegar no final do dia um trapo e ai quando entra no Instagram pra se distrair é obrigada a encontrar os coaches da produtividade que devem estar vivendo em um universo paralelo com stories de suco detox às duas da tarde. Mas esse não é o assunto.
O assunto aqui é, respeite seu tempo, seu corpo e seu emocional. Tá tudo bem se não tiver tudo bem. Você não precisa acordar todos os dias radiante, dando bom dia pro sol, 'namastê' pro cachorro e 'sendo grato por mais um dia vivo'. Você pode (e deve!) acordar puto às vezes. Você pode ter um dia improdutivo no qual você só queria ficar na cama. Principalmente se você está trabalhando 'normalmente'. E tudo bem. Trabalhe isso com você mesmo e tente sobreviver a mais um dia.
A nossa régua nunca pode ser o outro. Cada um de nós tem uma realidade e ao invés de nos comparar devemos tentar ser uma versão melhor de nós todos os dias. Os outros são só os outros.
Há uma aura de instabilidade no ar, principalmente porque a taxa de isolamento necessária pra conter o vírus está muito abaixo do ideal. Tem gente achando que é férias. Gente na rua, na fila do banco, da lotérica, do mercado, da padaria, fazendo churrasco todo dia, indo viajar e fazendo carreata para a volta do comércio (cês perderam a noção né?). Eram duas semanas de sacrifício pra não precisar ficar meses isolado. E nós não fomos capazes de cumprir. O vírus não está no nosso controle.
Não tem como nossa saúde mental passar ilesa a isso. Há empresas que tem prosseguido com as atividades o mais normalmente possível para a entrega das demandas. Há outras que já declararam redução de jornada e de salários. Há famílias inteiras que vivem do empreendedorismo e estão vendo seus comércios fechados há quase 30 dias. Há ramos de atividade considerados não essenciais que não sabem se sobreviverão até o final da quarentena. NÃO TEM COMO VOCÊ PASSAR POR ISSO E CONTINUAR RESPIRANDO NORMALMENTE.
Tá tudo bem acordar borocochô às vezes. Tá tudo bem sentir solidão. Tá tudo bem chorar no banheiro de saudades. Tá tudo bem ganhar peso. Tá tudo bem querer expulsar as crianças de casa às vezes. TÁ TUDO BEM.
Espero que eu possa ter traduzido nesse texto a angústia de muitos de vocês e que tenha trazido um pouco de motivação nesse momento difícil.
Do mais, fiquem bem, fiquem em casa, fiquem em segurança, lavem as mãos, usem máscara. Conte comigo se precisar. E se ame, acima de tudo.
Bêzu.