sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O namorado da Fátima Bernardes e o que eu tenho a ver com isso?

Alô gataiada do meu Brasil!!

Essa semana tava bombando na rede o 'escândalo' da Fátima Bernardes com seu novo bofe, Túlio Gadêlha.

Como todo romance de celebridade, esse tipo de notícia que não muda a vida de ninguém estava em 11 de cada 10 mídias - de fofoca ou não.

Mas o romance de Fátima tem um 'agravante', que faz com que a notícia 'bombe' ainda mais: Túlio é mais jovem que Fatima. Isso, mais jovem.

Ai eu me pergunto: mas que @?)/$ tenho eu a ver com quem Fatinha tá dando uns pega? Isso mesmo que você pensou, @?)/$ nenhuma. Mas o povo não acha o mesmo, povo acha que além de merecer satisfação, ainda pode fazer chacota com o ex, chacota com a 'coroa' pegando o novinho, perguntando o que os filhos acham disso, o que os pais acham disso, e mais-se-sabe-quem acha disso.
Num país cujo atual presidente da República, Michel Fora Temer, é casado com uma mulher mais jovem que ele, achei que vocês já tinham superado isso, crianças.

'Mas Bruuuuunaaaa, onde você quer chegar com isso??'
Eu que te pergunto, 'por que Michel passa ileso e Fátima não?'

Ai você vai me dizer que Temer também é vítima de piadinhas sobre a sexualidade na sua idade, ou piadinhas duvidando do amor de Marcela.
Isso, pra ofender o cara é preciso sobrar pra esposa mais jovem. Recorre-se ao machismo até pra fazer piada com outro homem!

Voltemos à Fatinha, que Temer já teve espaço de mais nesse blog.

Por que ela tem que dar satisfação pra mim, pra você, pro jornal, pros filhos ou pros pais?
Fátima é maior de idade, vacinada, paga as próprias contas e é uma profissional respeitada pelo que faz. Por que vocês acham que ela precisa dar satisfação pra alguém de alguma coisa?

Manchetes sobre novos relacionamentos de famosos saem todo dia, mas quando a mulher pega um cara mais novo o pau quebra na internet, e tudo fica pra trás, não se fala de mais nada, só da coroa pegando o novinho.

Deixem as Fátimas viverem suas vidas sem dever nada a ninguém.

O relacionamento da Fatima especificamente, teve uma repercussão positiva na mídia, muito pelo fato de ela ser um personalidade muito querida pelos fãs. Mas ela reacendeu essa discussão dos relacionamentos entre mulheres mais velhas e homens mais jovens. A novela das Fatimas anônimas não é tão mamão com açúcar.

A antropóloga Miriam Goldenberg em seu livro Por que os homens preferem as mulheres mais velhas? (Editora Record, 2017) menciona que a mudança de postura da sociedade com relação a algum tema ocorre em três etapas: o discurso de aceitação; a aplicação do discurso na vida real; e na ultima fase, essa nova postura se transforma em um valor da sociedade e deixa de chamar a atenção. De acordo com ela (e eu concordo) o Brasil está passando pela primeira - e mais difícil- fase.
O que me mata pessoalmente é não ver nenhum esforço pra sairmos dessa fase.

E quando você vai ver, a maior parte da repulsa vem das próprias mulheres. E se depara com o pior tipo de machismo que existe: aquele que vem de nós mulheres contra nós mesmas.
É o tipo de atitude que nos desempodera, nos enfraquece e claro, me mata de vergonha alheia.
Quantas vezes nesse blog eu já falei de amor próprio e aceitação?

E se nós somos diferentes como pessoas como que queremos que sejamos iguais em nossos relacionamentos? E quando você vê uma sociedade que não é capaz de ver com naturalidade um relacionamento por conta de uma mera diferença de idade, como podemos esperar que essa sociedade aceite relacionamentos menos 'ortodoxos', por exemplo, homossexuais?
Se não é bem aceito uma mulher decidir com quem e como ela quer se relacionar, como vamos empoderar mulheres, dizer a elas que elas podem ser o que quiserem e fazer o que quiserem?

'Querida, você pode dominar o mundo, desde que se relacione com um homem. Mas ele não pode ser 20 anos mais novo'.

Enquanto continuarmos reprimindo as Fatimas e aceitando os Temers ou mesmo condenando Temers, mas para isso alvejando Marcelas, estaremos dificultando a luta por igualdade para as mulheres que já é árdua o suficiente.

Fatima, eu te admiro e te respeito por ter respirado fundo, estufado o peito e desfilado com seu bofe por ai. Esse post foi pra fortalecer as Fatimas que ainda não conseguiram se aceitar ou aceitar outras Fatimas.

Eu acho sim, que o caminho para a terceira fase da mudança de postura será duro e tortuoso, mas que um dia chegaremos lá. Eu, ao menos, estou fazendo a minha parte.

E já que temos que conviver com as mídias de fofoca, espero ao menos um dia não ver mais reportagens do tipo 'Fatima Bernardes desfila com novo namorado 25 anos mais jovem' pra ver 'Fatima Bernardes desfila com novo namorado' apenas.

É isso, gataiada, depois de tanto tempo, escrevi de novo. Espero que esse post façam vocês refletirem e mudarem seus olhares pras Fatimas ao seu redor.

Bêzo da tia.




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Special for whom?*

Alô meu Brasil! Eu tardo, mas não falho.

Esse post foi inspirado numa publicação no face de uma amiga minha, Marina, que falava o seguinte "você pode trocar moda plus size por moda por exemplo". É isso mesmo que você leu. Tipo meme da Bela Gil.

E o papo é esse mesmo. Mas vamos começar do começo.

Esses dias ai eu dei um depoimento sobre a minha relação com a moda, que sempre foi bem conturbada, muito por conta do sobrepeso.
Eu era uma criança gorda, fui uma adolescente gorda e sou uma adulta gorda. Na infância e adolescência, entrar em lojas de roupa era um martírio, algo que me trazia um imenso desconforto e sofrimento. Primeiro porque dificilmente havia algo que me servisse. E segundo, se havia, eram roupas "de senhora", sem graça e sem estilo. Cada experiência comprando roupas nessa época foi traumatizante.
Como eu já contei no meu último post (que se você ainda não leu, vou te dar mais uma chance clicando aqui), meu amadurecimento passou por um árduo processo de autoaceitação, um exercício diário de amor-próprio e auto-estima. E esse processo teve um empurrãozinho da moda. Em resumo, essa história de "plus size" entrou em pauta num ramo feito por e para magros. Começaram a aparecer lojas especializadas e as fast fashion acabaram entrando na onda também e disponibilizando linhas exclusivas para as "mais cheinhas".

Legal, Bruna, inclusão, correto? ERRADO. O que eu percebi é que depois de criar a coleção plus size, as lojas não se vêem mais na obrigação de disponibilizar tamanhos grandes nas coleções "regulares". Ou seja, se você veste mais de 46, tem que entrar e ir direto na ala plus size, porque nas demais não haverá nada pra você. Desculpem, mas isso pra mim não é inclusão.
Além disso tem a questão dos tamanhos. Nas coleções regulares, os tamanhos máximos de roupa encontrados estão entre o 42 e o 44 (com uma dose de sorte). As coleções plus size começam no 48. Perceberam que há um limbo de mulheres nem magras o suficiente para as coleções regulares e nem gordas o suficiente para a plus size?
Prazer, Bruna, manequim 46.

E é nesse ponto do post da Mari que eu quero chegar. Por que temos que ser catalogados pelo tamanho de roupa? Por que a moda não é feita pensando em TODOS (e isso inclui o pessoal do tamanho PP/34 que eu também sei que tem uma dificuldade imensa de comprar roupas)? Por que simplesmente não tratamos tudo como "moda"? Por que se você é gorda tem que ir a uma ala exclusiva comprar roupa, como se tivesse uma doença contagiosa e não pudesse se misturar? Por que eu e minha colega que veste 40 não podemos ter a mesma blusa?

"Aaaaffeeee, mas começou falando que era ruim comprar roupa porque não tinha tamanho grande e agora que tem tá reclamando?" Se isso está passando pela sua cabeça possivelmente você é magro e não tem ideia do que eu estou falando e não entendeu o propósito desse post.

Demorou-se muito tempo pra perceberem que o pessoal que veste mais de 46 "também era gente" e se interessava por moda. Se vestir sendo gordo tem deixado de ser uma obrigação apenas de não sair pelado na rua, pra também ser o que a moda sempre deve ser: sua maneira de se expressar pro mundo. Se vestindo, você mostra sua personalidade e cria um estilo que te marca para aqueles ao seu redor. Democratizar a moda e permitir que os gordinhos também se sintam lindos com os corpos que tem é SENSACIONAL e é uma contribuição sem igual para o processo de autoaceitação que temos que enfrentar a cada dia.

Mas esse acesso deve ser ilimitado e não segregado.
Como a vida é uma constante evolução, não posso me conformar e achar que "ok, tendo uma ala pra gordo tá bom". Eu quero a loja toda, meu benhê. Teremos que caminhar muito para a inclusão plena, onde dos PPs aos EXGGs estaremos todos no mesmo balaio e nos misturando entre as araras. E da mesma forma como o "plus size" apareceu revolucionando a moda, tenho total esperança que isso vá acontecer também.

Por hora, independente do tamanho do seu manequim, continue praticando a difícil lição do amor-próprio, olhe-se no espelho e ache aquilo que vê lindo como é. Com todas as cicatrizes e marcas da sua história. É o melhor que você pode fazer por você. E quando somos melhores pra nós mesmos, somos melhores pro mundo.


É isso, gataiada. Um post ativista-desabafo-pra-te-fazer-refletir. Espero que tenham gostado.

Bêzu.

*do inglês "Especial pra quem?" ironizando a linha "Special for you" de uma rede de fast fashion destinada a mulheres plus size.