Obrigada tia, por essa ida ao cinema.
Vamos contextualizar. Eu tive uma adolescência complicada como qualquer adolescência que se preze. Era gorda. Ponto. Isso é autoexplicativo quando falamos de crianças. Era rebelde, achava que poderia mudar o mundo. Tinha pais conservadores e como filha mais velha fui cobaia do sistema educacional. Já viu que deu ruim, né? As brigas eram constantes. Eu era da "turma de preto". Usava "roupa de garoto" (as roupas femininas jamais conseguirão chegar nesse patamar de conforto, acreditem). Minha vaidade tendia a zero pra não dizer que era inexistente. Obviamente eu não era alvo dos garotos e isso de fato não me incomodava e fazia um esforço tremendo com a minha auto-estima pra não me deixar abalar com os comentários maldosos.
Depois de conhecer o mundo mágico de Harry Potter eu me apeguei a ele com unhas e dentes. Era minha válvula de escape. Tornava as minhas batalhas com meu Você-Sabe-Quem interior possíveis de serem vencidas. Depois de assistir Pedra Filosofal rapidamente eu devorei todos os livros que estavam publicados. Passava horas na internet pesquisando, fuçando, enfim, me tornando uma Potterhead aos poucos.
Mãe, obrigada por ter me levado ao cinema todas as vezes que foram necessárias.
Foi assim que eu sobrevivi aos 4 anos que se seguiram. Eu não sei e nem consigo imaginar como teria sido tanta coisa acumulada sem ter pra onde ir. Possivelmente teria parado num psicólogo ou algo do gênero. JK Rowling pegou uma garota insegura, cheia de frustrações e a estava transformando em alguém com personalidade e mais do que isso, em alguém com extremo amor próprio. Alguém que estava descobrindo a magia de ser ela mesma. JK Rowling me salvou de me afundar em angústias adolescentes, bullying e rebeldia.
A vida de todo adolescente muda aos 15 anos e comigo não foi diferente. Mudei de escola pra cursar o Ensino Médio e lá eu conheci o que eu achava que não existia outro exemplar: mais dois nerds desajeitados e desajustados. Que faziam da inteligência uma arma, eram amados pelos professores pelas perguntas capciosas e obviamente eram detestados pela maioria do resto da turma. Tá, a gente tirava uma com a "desinteligência" alheia. A gente não era santo. Foi amor à primeira vista. Meu golden trio estava completo. Nessa época eu já tinha aprendido o suficiente com Harry Potter o valor de uma verdadeira amizade. Por isso a gente se aguenta até hoje.
Rick e Gu, obrigada pelos 10 anos sendo as outras pernas do meu tripé. E pelas gordices, sempre.
Como tudo que é bom nessa vida dura pouco, a gente se separou fisicamente durante a graduação e foi ai que começaram nossos encontros aos finais de semana. O famoso "Chá de Falar Mal dos Outros". E foi durante a graduação que estreou Relíquas da Morte Parte II. O único que eu fui à estreia, com a minha caçula (se tem algo de bom que fiz por ela, foi o amor pela saga HP). Foi mágico, épico. A conclusão de 10 anos acompanhando a história, vendo as personagens crescerem e desenvolverem suas personalidades diante dos meus olhos. O "final feliz" mostrando que com alguns bons amigos e uma dose de coragem você poderia fazer o que quisesse com sua história.
Eu tinha 21 anos, era adulta, tinha amadurecido, quase-engenheira. Tinha desenvolvido um gênio difícil e uma personalidade forte. Havia descoberto a vaidade e o bem que ela pode te fazer nos dias ruins, além de consolidar meu vasto vocabulário de palavrões. Aquela adolescente de 11 anos e cheia de medo estaria orgulhosa daquela mulher que foi à estreia do filme. O que sobrou dela? As músicas da "turma de preto" que ainda ouço.
Saí do cinema aos prantos. Fred Weasley-o-ruivo-amor-da-vida tinha morrido. E JK Rowling tinha salvo a minha vida de mim mesma.
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Depois de formada, meu eu-agora-engenheira passou pela angústia de não encontrar um emprego (contrário do que foi prometido a todos os vestibulandos ingressantes em 2009). E depois que encontrou, não saber se estava no lugar certo, fazendo o certo, se era aquilo mesmo, se seria boa profissional, se saberia aplicar o que aprendeu e todas essas nóias-básicas-do-dia-a-dia. E cheguei à conclusão que a angústia não melhora com a vida adulta, ela só muda de cara. Foi ai que apareceu A Criança Amaldiçoada, mostrando o trio mais famoso do mundo lidando com suas questões adultas, seus empregos e suas famílias. E cometendo erros tão comuns a todos nós, que é quase inconcebível pra quem salvou o mundo bruxo do maior bruxo das trevas. Fazendo uma merda atrás da outra na tentativa de fazer o melhor e principalmente de proteger aqueles que amamos. E me provando que quem disse que não são nossas habilidades que definem quem somos, são nossas escolhas sabia das coisas. Li em uma sentada só. 5 anos de abstinência faz essas coisas.
Mas o melhor ainda estava por acontecer. A estreia de Animais Fantásticos. Em meio a um monte de pensamentos que estão tomando conta de mim, em vários aspectos da minha vida, fui sozinha ao cinema, ver a história de um mundo que eu estava morrendo de saudades. Eu precisava de uma válvula de escape pra esse turbilhão de pensamentos e ela veio.
Meu coração disparava como da primeira vez naquele cinema há 15 anos. Como há 5 anos com o final da história que tanto amava. E aprendi a amar Newt Scarmander também. Seu jeito excêntrico de ver o mundo. E percebi que como ele também criei meu mundo secreto dentro da minha maleta e dentro dela coloquei aquilo que mais amava e minhas razões pelas quais lutar. Só preciso abrir e entrar, ela estará lá à disposição. E de vez em quando criaturas escapam dela e fazem a maior bagunça e me dão a maior trabalheira pra capturar e colocar de volta na maleta.
A Bruna-de-26-anos precisava dessa dose de magia, assim como a garotinha de 11 precisava. Ela estava se deixando levar pelas suas trevas de novo. Afinal todos temos luz e trevas dentro de nós, o que nos define é o lado com o qual escolhemos agir. Ela precisava encontrar sua luz e seguir em frente. Saí aos prantos do cinema de novo. De novo JK Rowling me mostrou que boas amizades podem tornar o impossível ao menos imaginável e o amargo ao menos "digerível". Rick e Gu, nossa amizade será sempre nosso mais eficiente patrono.
JK Rowling me puxou de novo pro seu mundo. E de novo ela começou a me salvar.
**Alorromora é um feitiço para abrir portas. Achei que precisava abrir as do meu coração nesse post. Até então eu não tinha tido coragem.
Gataiada, eu sei que esse post foi diferente de tudo que já escrevi no blog. Mas eu precisava, mesmo.
Não pense que deixei o ativismo de lado. JA-MAIS.
Bêzu.
