sexta-feira, 18 de novembro de 2016

"Alorromora!"**

2001. Eu tinha 11 anos e passava uns dias de férias na casa de uma tia quando o conheci. Era magricela, desajeitado e usava óculos. Possivelmente era maltratado na escola por ser diferente dos padrões. Me identifiquei. Ele conheceu um amigo, igualmente desajeitado, que fazia piada com tudo. Uma forma de esconder sua angústia ao se abalar por comentários maldosos dos colegas. Me identifiquei. Ai chegou a garota. Cabelos desgrenhados, parecia não ligar muito em se arrumar. Inteligente. Demais até. Brilhante. Tanto que sem querer sua inteligência inocentemente se confundia com arrogância, ela precisava sempre se auto afirmar. Dali eu soube que seríamos amigos se estudássemos na mesma escola.
Obrigada tia, por essa ida ao cinema.

Vamos contextualizar. Eu tive uma adolescência complicada como qualquer adolescência que se preze. Era gorda. Ponto. Isso é autoexplicativo quando falamos de crianças. Era rebelde, achava que poderia mudar o mundo. Tinha pais conservadores e como filha mais velha fui cobaia do sistema educacional. Já viu que deu ruim, né? As brigas eram constantes. Eu era da "turma de preto". Usava "roupa de garoto" (as roupas femininas jamais conseguirão chegar nesse patamar de conforto, acreditem). Minha vaidade tendia a zero pra não dizer que era inexistente. Obviamente eu não era alvo dos garotos e isso de fato não me incomodava e fazia um esforço tremendo com a minha auto-estima pra não me deixar abalar com os comentários maldosos.

Depois de conhecer o mundo mágico de Harry Potter eu me apeguei a ele com unhas e dentes. Era minha válvula de escape. Tornava as minhas batalhas com meu Você-Sabe-Quem interior possíveis de serem vencidas. Depois de assistir Pedra Filosofal rapidamente eu devorei todos os livros que estavam publicados. Passava horas na internet pesquisando, fuçando, enfim, me tornando uma Potterhead aos poucos.
Mãe, obrigada por ter me levado ao cinema todas as vezes que foram necessárias.
Foi assim que eu sobrevivi aos 4 anos que se seguiram. Eu não sei e nem consigo imaginar como teria sido tanta coisa acumulada sem ter pra onde ir. Possivelmente teria parado num psicólogo ou algo do gênero. JK Rowling pegou uma garota insegura, cheia de frustrações e a estava transformando em alguém com personalidade e mais do que isso, em alguém com extremo amor próprio. Alguém que estava descobrindo a magia de ser ela mesma. JK Rowling me salvou de me afundar em angústias adolescentes, bullying e rebeldia.

A vida de todo adolescente muda aos 15 anos e comigo não foi diferente. Mudei de escola pra cursar o Ensino Médio e lá eu conheci o que eu achava que não existia outro exemplar: mais dois nerds desajeitados e desajustados. Que faziam da inteligência uma arma, eram amados pelos professores pelas perguntas capciosas e obviamente eram detestados pela maioria do resto da turma. Tá, a gente tirava uma com a "desinteligência" alheia. A gente não era santo. Foi amor à primeira vista. Meu golden trio estava completo. Nessa época eu já tinha aprendido o suficiente com Harry Potter o valor de uma verdadeira amizade. Por isso a gente se aguenta até hoje.
Rick e Gu, obrigada pelos 10 anos sendo as outras pernas do meu tripé. E pelas gordices, sempre.

Como tudo que é bom nessa vida dura pouco, a gente se separou fisicamente durante a graduação e foi ai que começaram nossos encontros aos finais de semana. O famoso "Chá de Falar Mal dos Outros". E foi durante a graduação que estreou Relíquas da Morte Parte II. O único que eu fui à estreia, com a minha caçula (se tem algo de bom que fiz por ela, foi o amor pela saga HP). Foi mágico, épico. A conclusão de 10 anos acompanhando a história, vendo as personagens crescerem e desenvolverem suas personalidades diante dos meus olhos. O "final feliz" mostrando que com alguns bons amigos e uma dose de coragem você poderia fazer o que quisesse com sua história.
Eu tinha 21 anos, era adulta, tinha amadurecido, quase-engenheira. Tinha desenvolvido um gênio difícil e uma personalidade forte. Havia descoberto a vaidade e o bem que ela pode te fazer nos dias ruins, além de consolidar meu vasto vocabulário de palavrões. Aquela adolescente de 11 anos e cheia de medo estaria orgulhosa daquela mulher que foi à estreia do filme. O que sobrou dela? As músicas da "turma de preto" que ainda ouço.
Saí do cinema aos prantos. Fred Weasley-o-ruivo-amor-da-vida tinha morrido. E JK Rowling tinha salvo a minha vida de mim mesma.

ME DEFINE

Depois de formada, meu eu-agora-engenheira passou pela angústia de não encontrar um emprego (contrário do que foi prometido a todos os vestibulandos ingressantes em 2009). E depois que encontrou, não saber se estava no lugar certo, fazendo o certo, se era aquilo mesmo, se seria boa profissional, se saberia aplicar o que aprendeu e todas essas nóias-básicas-do-dia-a-dia. E cheguei à conclusão que a angústia não melhora com a vida adulta, ela só muda de cara. Foi ai que apareceu A Criança Amaldiçoada, mostrando o trio mais famoso do mundo lidando com suas questões adultas, seus empregos e suas famílias. E cometendo erros tão comuns a todos nós, que é quase inconcebível pra quem salvou o mundo bruxo do maior bruxo das trevas. Fazendo uma merda atrás da outra na tentativa de fazer o melhor e principalmente de proteger aqueles que amamos. E me provando que quem disse que não são nossas habilidades que definem quem somos, são nossas escolhas sabia das coisas. Li em uma sentada só. 5 anos de abstinência faz essas coisas.

Mas o melhor ainda estava por acontecer. A estreia de Animais Fantásticos. Em meio a um monte de pensamentos que estão tomando conta de mim, em vários aspectos da minha vida, fui sozinha ao cinema, ver a história de um mundo que eu estava morrendo de saudades. Eu precisava de uma válvula de escape pra esse turbilhão de pensamentos e ela veio.
Meu coração disparava como da primeira vez naquele cinema há 15 anos. Como há 5 anos com o final da história que tanto amava. E aprendi a amar Newt Scarmander também. Seu jeito excêntrico de ver o mundo. E percebi que como ele também criei meu mundo secreto dentro da minha maleta e dentro dela coloquei aquilo que mais amava e minhas razões pelas quais lutar. Só preciso abrir e entrar, ela estará lá à disposição. E de vez em quando criaturas escapam dela e fazem a maior bagunça e me dão a maior trabalheira pra capturar e colocar de volta na maleta.

A Bruna-de-26-anos precisava dessa dose de magia, assim como a garotinha de 11 precisava. Ela estava se deixando levar pelas suas trevas de novo. Afinal todos temos luz e trevas dentro de nós, o que nos define é o lado com o qual escolhemos agir. Ela precisava encontrar sua luz e seguir em frente. Saí aos prantos do cinema de novo. De novo JK Rowling me mostrou que boas amizades podem tornar o impossível ao menos imaginável e o amargo ao menos "digerível". Rick e Gu, nossa amizade será sempre nosso mais eficiente patrono.
JK Rowling me puxou de novo pro seu mundo. E de novo ela começou a me salvar.




**Alorromora é um feitiço para abrir portas. Achei que precisava abrir as do meu coração nesse post. Até então eu não tinha tido coragem.

Gataiada, eu sei que esse post foi diferente de tudo que já escrevi no blog. Mas eu precisava, mesmo.
Não pense que deixei o ativismo de lado. JA-MAIS.

Bêzu.



sábado, 19 de março de 2016

Apenas saia do redemoinho e leia esse post!

Olá gataiada!

Eu jurei pra mim mesma que não ia entrar nessa vibe de disputa política que está tomando conta da internet. E tô firme e forte na minha resolução.
Esse post não é uma manifestação da minha posição política com relação ao que está acontecendo, é apenas parte das minhas resoluções de ano novo de tentar tirar o melhor do que acontece à nossa volta.

"Mas Bruuuuunaaaa, como podemos tirar algo de bom dessa putaria que tá rolando??" Apenas reflita: se você tem menos de 30 anos como eu, nunca na sua breve existência deve ter visto tanta discussão política em mesa de bar como agora (na real, eu acredito que desde o Diretas Já! não se discute política como se deve). Estamos falando de política com a família, com os colegas de trabalho, com os amigos numa mesa de bar. E isso é BOM! MUITO bom.
E isso não depende da sua opinião, se você é pró-PT, pró-impeachment, pró-o-que-você-quiser. Isso é bom porque nós brasileiros sempre nos colocamos numa posição coadjuvante com relação à política.

"Que merda esse voto obrigatório!"

"Vou votar no Zé da Pastelaria* porque ele é meu amigo!"

"Nem lembro em quem eu votei pra deputado..."

É, querido, não é com esse tipo de atitude que se faz boa política. Esse nosso papel de alheio ao que tá rolando nos fez eleger caras sem estudar sua história e seus projetos políticos a fundo e darem uma liberdade exagerada para fazerem o que quiseram com nosso país. Agora, você aceitando ou não a ideia, estamos tentando consertar uma merda que em boa parte a culpa é nossa. E não tô criticando só o atual governo, que isso fique bem claro (não vai me dizer que cê acha que o PT criou a corrupção, né?). Critico toda essa bola de neve de corrupção que se arrasta no nosso país há décadas, seja do partido que for.

A culpa é nossa quando votamos no cara que "rouba, mas faz". Quando ou somos coxinhas, ou somos petralhas e não damos sequer a chance dos candidatos "menores" irem para o segundo turno. Assistam aos debates, porra! Nem que seja o da Globo! A culpa é nossa quando chamamos de "nerds", "chatos", "muito cult" aqueles que como eu estavam de olho nessa palhaçada toda bem antes de ela ganhar a mídia nacional. E a culpa é mais nossa ainda quando achamos que o cargo da presidência é o nosso voto mais importante e votamos em qualquer um pras outras esferas do governo. Apenas pense: você sabe pra quais deputados, senadores e por Deus, vereadores você deu seu voto?? Se a resposta for não, você tá fazendo isso errado. Não só é saber, como COBRAR os caras para fazerem valer um próximo voto, ou não. E sério, se você não se preocupa nem com o bem estar do seu bairro, não adianta encher a Av. Paulista: porque cê vai fazer merda na urna de novo.

Mas voltando a parte boa. Essa bagunça toda que tá rolando serviu pra que pelo menos uma parte da população (mesmo achando que "não votei no fulano, a culpa não é minha!") parasse de discutir futebol pra falar de política. Pra parar e ver o que tá acontecendo nesse país e mais: há uma esperança de que a mentalidade da população com relação à política mude e finalmente poderemos fazer da democracia a arma certa pra mudar esse país. Porque, de novo, você aceitando ou não a ideia, fomos nós quem colocamos os caras lá. Nós deixamos eles fazer o que quiseram. E somos nós que devemos fazer a mudança. Mas a parte ruim é que já vi esse filme. Em 2014 fomos às ruas, gritamos, dissemos que tínhamos acordado um gigante, Chegou novembro e veja no que deu: PSDB e PT no segundo turno de novo e o resto da história cê já conhece. Brigas no facebook. Coxinhas contra petralhas. Dólar na estratosfera. Que o gigante que acordou agora não durma tão rápido quanto o outro e que independente das suas convicções políticas, entendamos de uma vez por todas que temos que lutar por uma nação, pelo todo, pelo comum. E que brigar por partido, pelo que é vantajoso só pra você, ter que escolher um lado dessa briga, não vai nos tirar da lama que estamos agora, só vai nos fazer patinar nela.




Gataiada, espero que esse texto tenha te feito parar pra pensar um pouquinho e que te inspire a ser a mudança que você quer ver no nosso país, começando por você mesmo. Como sempre, aguardo seus comentários. Besos.


*O nome Zé da Pastelaria é fictício e não tem nenhuma insinuação à realidade. Se você conhece algum Zé da Pastelaria, político ou não, não se ofenda.