segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Desculpem o transtorno, vou ter que falar da Danuza Leão...

Alô Gataiada!

Eu tava tranquila em casa cuidando da minha vida, acompanhando o protesto "Time's up" que rolou no Globo de Ouro contra o assédio-sexual-óbvio sofrido pelas mulheres no meio artístico - ou não.

Se você não sabe do que eu estou falando, segue o link pro Instagram da dyva-maravilhosa-Hermione-eterna, Emma Watson pra você dar uma checada. Porque se você procurar 'feminista' no dicionário, vai ter uma foto dessa musa lá.

Tava tudo bem, Oprah encabeçou a campanha que prometia realmente mandar um "Time's up" nos abusos cometidos na indústria cinematográfica, que na real representam um espaço amostral ínfimo perto dos assédios sofridos por mulheres comuns todos os dias, porém foi um grande e importante passo para o 'estamos caminhando para um mundo melhor'.

Mas, como tem gente que não pode ver uma vergonha que quer passar, eis que surge como uma fênix de Deus-sabe-de-onde: Danuza Leão.

Se você não leu o texto dela, eu te faço o favor de deixar o link pra você não ficar boiando na conversa.

Primeiramente, apesar de não concordar nem com a pontuação desse texto, eu sou veementemente contra qualquer tipo de censura, então ela tá no direito dela de escrever o que quiser (como eu aqui nesse blog) e eu estou no meu de discordar. Ponto.

Segundamente, depois que eu li o texto pela primeira vez eu fiquei tão passada que podia jurar que o texto era irônico. Sim, essa sou eu tentando tirar o melhor das pessoas. Eu li de novo, e de novo e mais uma vez pra ter certeza de que não, não era ironia. Ela acredita em cada palavra daquilo que escreveu e em pleno 2018 eu fui obrigada a ouvir uma mulher agredindo outras mulheres.

Então, vamos explorar o texto em partes:

O que não está claro para mim é o conceito de assédio. É uma paquera? Avanços sexuais entre homens e mulheres começam sempre de um lado. Às vezes, o outro lado não quer, e isso é normal. Como definir?



Fofa, eu podia te dizer pra procurar no dicionário, mas como eu sou descolada eu vou te dizer pra colocar no Google:



assédio
substantivo masculino
  1. 1.
    operação militar, ou mesmo conjunto de sinais ao redor ou em frente a um local determinado, estabelecendo um cerco com a finalidade de exercer o domínio.
  2. 2.
    fig. insistência impertinente, perseguição, sugestão ou pretensão constantes em relação a alguém.

paquera
substantivo feminino
Binfrm.
  1. 1.
    ato ou efeito de paquerar; tentativa de namoro, paqueração.

    "anda só na p."
  2. 2.
    substantivo de dois gêneros
    Binfrm.
    indivíduo namorador.

Todos concordamos que os tais 'avanços sexuais entre homens e mulheres começam sempre de uma lado'. Não só entre homens e mulheres, né, que-ri-da. De qualquer relacionamento. Se um lado avança e o outro topa de livre e espontânea vontade entrar nessa dança do acasalamento, ok, maravilha, vâmo trepar, meu povo.
Agora, a não-tão-sutil diferença está se um dos lados diz claramente "não" e o outro se acha no direito de ignorar. De usar sua força (física ou não), influência, poder, hierarquia profissional, social, para forçar o 'consentimento' do outro lado. Estamos entendidos da diferença ou quer que eu desenhe?


Espero que essa moda de denúncia contra assédio sexual não chegue ao Brasil. O que aconteceu no Globo de Ouro me pareceu um grande funeral. Apesar dos vestidos lindíssimos, acho que aquelas mulheres (que foram à cerimônia de preto) foram muito pouco paqueradas e voltaram sozinhas para casa.

Pra começar, moda é algo passageiro, que está em alta agora e na próxima estação não é mais assunto. Assédio sexual NÃO É MODA! É um assunto sério e tão antigo quanto à humanidade. E um 'grande funeral' está o meu coração de ver uma mulher com tão pouca sororidade. 
Ter que atacar as mulheres que estavam protestando, dizendo que elas 'foram muito pouco paqueradas e voltaram para casa sozinhas' para usar isso como base para algum tipo de argumentação é inaceitável, ainda mais para uma jornalista. É machista, ofensivo, raso, vazio, ridículo. 

Não acho que as denúncias de assédio possam gerar uma ‘caça às bruxas’ porque são uma coisa ridícula, para começo de história. 

E o negócio só piora...

É doloroso saber que uma mulher pode fazer uma acusação e tirar o emprego de um homem. É algo pecaminoso. Mas isso é coisa de americano. Lá eles não têm noção de sexo. 



Tirar o emprego?? Coitadinho, inocente, vai ficar sem emprego. Que dó. Você sabe quantas mulheres MORREM vítimas de assédio sexual TODOS OS DIAS? Pecaminoso é o cara te assediar, ser denunciado e não acontecer absolutamente NADA com ele (como é facilmente ilustrado pelos acusados de Hollywood). Pecaminoso é o cara sair de um emprego e ser contratado em outro como se nada tivesse acontecido. Pecaminoso sou EU ter que sair nas ruas com medo porque pessoas como Danuza Leão acham denúncias de assédio uma coisa ridícula.

No fundo, esse parágrafo dela revela uma visão de uma boa parte das pessoas, que acham que mulher que denuncia assédio é louca, histérica e mal-amada.

É ótimo passar em frente a uma obra e receber um elogio. Sou desse tempo. Acho que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz. Viva os homens.


Sem palavras. É tudo que posso dizer sem esse parágrafo. Alguém que 'receita' assédio como medicação pra busca da felicidade tem uma noção tão distorcida da realidade que eu nem sei como descrever.
Danuza, você definitivamente nunca foi assediada. Se tivesse sido saberia. Você nunca teve que aceitar um sub-emprego pra colocar comida na mesa e engolir sapo dos homens ao seu redor pra pagar as contas. Se tivesse tido, saberia. Você nunca trabalhou num ambiente tipicamente masculino e teve que ouvir todos os dias eles reclamando das esposas com comentários do tipo 'mulher é assim'. Você nunca foi descaradamente cantada por um colega de trabalho e ficou indignada, mas deu um sorrisinho amarelo e saiu de fininho.

Nunca é tarde pra lembrar que o feminismo não é, de forma nenhuma, contra os homens e nem que nós feministas sonhamos com um harém de escravos sexuais a mercê das nossas vontades. O que nós queremos é igualdade. Andar na rua sem medo, tal qual os homens andam. Poder colocar meu copo no balcão da balada, ou descuidar dele por 1 minuto só, sem medo de ser drogada e acordar sabe-se-lá-onde. Ganhar igual ao meu colega homem pra fazer a mesmíssima coisa. Ser cotada pra cargos de liderança e não ter que me provar a todo instante só porque eu não tenho um pênis. Poder revidar um comentário que não gostei - mesmo de alguém de maior hierarquia - sem ter que ouvir depois que eu não tenho 'inteligência emocional'. Não ter que ouvir colegas homens fazendo comentários como 'gostosa' e 'delícia' sobre a sua colega mulher e ter que ainda se dar ao trabalho de explicar porque ficou p*** da vida. Poder transar com quem eu quiser sem ser obrigada a ouvir que eu sou 'fácil' ou 'não sou pra casar'. Não ter que me justificar porque priorizo a minha carreira do que um casamento ou filhos. Não ter direito a essas coisas que pra um homem são banais, isso sim é pecaminoso.

Também nunca é demais dizer que o Time's up é contra assediadores e não homens. Se você é homem e não é assediador e se admira e respeita verdadeiramente as mulheres, você também deve apoiar o feminismo, porque você também se beneficiará dele.

O post foi longo, mas foi libertador. Espero como sempre que vocês tenham gostado e nos vemos no próximo.
Bêzu.

                    Resultado de imagem para times up