segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Da criança que fui para o adulto que sou.

 Olá pissoas! 

Cês tão bonzinho? 

Hoje é Dia das Crianças, ie, mais uma data comercial pra estimular a obrigação social de dar presentes em datas aleatórias. Mas essa não é a polêmica de hoje.

A Mariana Xavier postou no canal dela um vídeo sobre um tema que eu queria ter falado aqui há bastante tempo, então clica no link porque vale a pena assistir.

Ela chama uma reflexão sobre os impactos da nossa infância naqueles que somos como adultos. E, claro, nem eu nem ela somos profissionais de psicologia, tudo que foi dito no vídeo e o que eu escrever aqui são frutos da minha própria reflexão e de muita terapia.

Você que me conheceu depois de adulta, pode não acreditar no que eu vou dizer, mas eu era uma criança super sensível. Se você gritasse comigo provavelmente eu sairia chorando sem pensar duas vezes. Eu também era uma criança tranquila. Dizem os relatos que se você me deixasse brincando por horas, lá eu ficaria. Se eu apanhasse de outra criança eu não esboçava reação de revidar, e geralmente eu chorava. 

Fofo, né?

Não pra quem estava do lado de cá. A frase que eu mais ouvia 'você é muito chorona, não pode falar nada!'. Inclusive, até a idade adulta, esse pequeno 'detalhe' foi motivo de chacota na minha família. O resultado? Uma vida toda me esforçando bravamente pra esconder o que sentia e respirando cada vez mais fundo toda vez que as lágrimas queriam vir. Ao longo dos anos desenvolvi um raciocínio rápido, capaz de ter uma resposta pronta na ponta da língua. Aquela criança que não revidava, hoje não deixa nada passar batido, gosta de uma boa briga e muitas vezes ultrapassa o limite do quanto pode magoar alguém em uma discussão. E a pior parte é que quase nunca se arrepende. E minha terapeuta que lute. 

E as mesmas pessoas que faziam chacota dizem que eu tenho que controlar meu 'gênio forte'. Acho que elas não se deram conta da responsabilidade que tem nessa história. Porque esse negócio de psicologia infantil é coisa de criança Nutella, né? #ironia 

Minha infância teve certamente mais momentos felizes do que tristes, o parágrafo acima é um fato pontual, porém muito marcante na minha personalidade. E se eu, que tive uma infância privilegiada, estrutrura familiar, comida na mesa, colégio particular, família unida igual a da propaganda de margarina, tento todos os dias me livrar de alguns 'traumas' da minha infância que claramente refletem naquela que sou hoje, imagine quem não teve.

Se você, assim como eu, teve a oportunidade de visitar o colégio que estudou quando era criança, provavelmente olhou pra tudo aquilo com certa estranheza, porque nas suas lembranças aquele lugar era muito maior do que de fato ele é. Isso é um exemplo simples de como coisas insignificantes pra nós pode ter uma proporção muito maior para as crianças.

Use esse dia para refletir sobre o impacto que você tem sobre as crianças ao seu redor. Pelo amor da deusa, não faça comentário do tipo 'engole o choro!', 'homem não chora' ou o clássico 'apanhei e não morri'. Não obrigue crianças a terem gestos de afeto com adultos que elas não querem. E nem dê a entender coisas do tipo 'você tem que obedecer porque é criança!'. Isso deixa elas a mercê dos mais variados tipo de abuso. Nós somos os adultos, nós temos raciocínio crítico, a responsabilidade é nossa.

Nunca diga que um sonho é bobo, encorage o mais absurdo deles. Certamente isso tem mais significado do que um brinquedo novo. Se não puder ajudar no desenvolvimento de uma criança, faz pelo menos o favor de não atrapalhar. Seja a lembrança boa na infância de alguém e não aquele que fazia chacota.

Use esse dia para pontuar dentro de você todas as situações na sua infância que impactaram no adulto que você é hoje (principalmente as ruins) e como você se sentiu quando seus sentimentos foram magoados naquela época. Se não te ajudar em nada, ao menos te fará pensar duas vezes antes de fazer o mesmo com uma criança ao seu redor. 

Pesado pra um feriado? Talvez. Mas eu adoro um dedo na ferida. E quanto mais doer, melhor.

Segue uma foto minha de criança pra você continuar me achando fofa mesmo despois desse post. 


Bêzu.

domingo, 26 de julho de 2020

Lições da quarentena

Rélow para meus amiguíneos confinados desse meu Brasil varonil!

A segunda metade do ano já começou cantando pneu e nóis tá como? Ainda em quarentena.

Por definição quarentena é um período de quarenta dias. O que a gente não contava era com a nossa incompetência pra tratar uma pandemia mundial. E lá se vão quase 5 meses.

No começo, eu saí da região metropolitana (pra quem não sabe, eu atualmente moro no ABC, depois de 4 anos vivendo em São Paulo) e vim para o interior, pois a situação aqui estava mais tranquila do que nos grandes centros. Agora, como sabemos, o mapa da COVID se inverteu, a capital está retomando seu ritmo e o interior está batendo cabeça contra o vírus.

Dito isso, esse tempo me levou a algumas reflexões:

1) Eu amo a minha casa. Muito. Não importa que ela é alugada, lá é o meu lar. É onde estão todas as minhas coisas (materiais ou não), e lá é o lugar onde pertenço. Estou na casa dos meus pais, com eles e meus irmãos, mas nada preenche o vazio da saudade que eu sinto da minha casa. Pelo simples fato que ela é MINHA. A casa dos meus pais é deles, e nada mais. 

2) A saudades dos meus amigos é de dilacerar o peito. Há quase 5 meses eu não vejo nenhum deles e mesmo estando em contato pela internet, NADA paga o abraço necessário que só eles sabem dar. Farei 30 anos em breve e o que mais me dói é não poder estar com eles em carne e osso pra comemorar. 

3) Eu sou a minha melhor companhia. Eu moro sozinha há tempo suficiente pra não precisar de uma quarentena pra descobrir isso. Mas há muito não ficava tanto tempo numa casa tão povoada. Se antes do isolamento me achava solitária, depois dessa experiência, tenho valorizado os momentos de solidão. Quem tem família grande sabe do que eu tô falando.

4) NADA que custe a sua sanidade mental vale a pena. Se você não for a prioridade da sua própria vida, lamento, mas não será a de ninguém. A gente não pode ser irresponsável com os sentimentos alheios, mas não podemos nos abster das nossas próprias necessidades em prol do bem-estar de alguém. Se te custar a paz, ligue o foda-se.

5) A melhor decisão de ontem pode não ser a melhor de amanhã. É, nada é pra sempre. Em março eu tomei a decisão de vir pro interior porque estaria mais segura perto da família. Depois de 5 meses, minha saúde mental está cobrando o preço de ficar longe do meu lugar de pertencimento e repensar essa decisão pode ser a diferença entre a tempestade e a calmaria.

6) Respeite seu corpo. Ele é a régua da qualidade de como você tem levado a vida. Alimente-se bem, faça exercícios (se puder), cuide da pele, use roupas confortáveis (e conforto cada um sabe o que significa pra si), encontre um lugar de paz para o home office. Seu corpo é o único bem que você leva pro túmulo. Cuide bem dele. E continue amando-o caso ele mude no isolamento. Amar faz parte do cuidar.

E você? O que aprendeu com esses meses de isolamento?

Fiquem bem, a salvo e EM CASA. Se precisar sair, máscara e alquingel.

Bêzu.

domingo, 19 de abril de 2020

Você já surtou nessa quarentena?

Se não, você tá de pa-ra-béns.


Olá pissoas confinadas desse meu Brasil varonil! Cês tão batendo bem da cabeça ainda?


A minha quarentena começou há quase um mês. A empresa onde trabalho decidiu que todos os funcionários possíveis trabalhariam de casa e o restante se revezaria. Antes que você nos julgue, estamos na cadeia de alimentos, então parar completamente está fora de cogitação.

Nesse tempo eu já vi gente fazendo treino em casa (fisioterapeutas, se preparem, depois que tudo voltar ao normal vocês terão trabalho de sobra), gente fazendo cursos novos, aprendendo um novo hobby, reformando a casa, aproveitando o tempo "livre" para ser o mais produtivo possível. E isso é definitivamente uma merda.

De uma hora pra outra todo mundo virou blogueiro de produtividade, esfregando na cara dos mortais que sairão da quarentena o Chuck Norris da gestão do tempo. Deuzolivre. E eu me pego pensando, ou eu tô fazendo tudo errado, ou esse pessoal realmente é diferenciado. Trabalhando em casa eu sinto que trabalho o dobro, tem dias que é o VPN da empresa que sobrecarrega, tem dias que a internet de casa não funciona, tem dias que você manda um email e entra em oração, simples assim. Tem dias que você quer levantar, sacodir a poeira, colocar uma roupa bonita, passar um batom e entregar todas as pendências que precisa. E tem dias que até tirar o pijama é uma tarefa difícil. E TÁ TUDO BEM, MEU POVO.

A carga física e mental do tal home office, somada ao contexto que estamos vivendo, faz a gente chegar no final do dia um trapo e ai quando entra no Instagram pra se distrair é obrigada a encontrar os coaches da produtividade que devem estar vivendo em um universo paralelo com stories de suco detox às duas da tarde. Mas esse não é o assunto.

O assunto aqui é, respeite seu tempo, seu corpo e seu emocional. Tá tudo bem se não tiver tudo bem. Você não precisa acordar todos os dias radiante, dando bom dia pro sol, 'namastê' pro cachorro e 'sendo grato por mais um dia vivo'. Você pode (e deve!) acordar puto às vezes. Você pode ter um dia improdutivo no qual você só queria ficar na cama. Principalmente se você está trabalhando 'normalmente'. E tudo bem. Trabalhe isso com você mesmo e tente sobreviver a mais um dia.

A nossa régua nunca pode ser o outro. Cada um de nós tem uma realidade e ao invés de nos comparar devemos tentar ser uma versão melhor de nós todos os dias. Os outros são só os outros.

Há uma aura de instabilidade no ar, principalmente porque a taxa de isolamento necessária pra conter o vírus está muito abaixo do ideal. Tem gente achando que é férias. Gente na rua, na fila do banco, da lotérica, do mercado, da padaria, fazendo churrasco todo dia, indo viajar e fazendo carreata para a volta do comércio (cês perderam a noção né?). Eram duas semanas de sacrifício pra não precisar ficar meses isolado. E nós não fomos capazes de cumprir. O vírus não está no nosso controle.

Não tem como nossa saúde mental passar ilesa a isso. Há empresas que tem prosseguido com as atividades o mais normalmente possível para a entrega das demandas. Há outras que já declararam redução de jornada e de salários. Há famílias inteiras que vivem do empreendedorismo e estão vendo seus comércios fechados há quase 30 dias. Há ramos de atividade considerados não essenciais que não sabem se sobreviverão até o final da quarentena. NÃO TEM COMO VOCÊ PASSAR POR ISSO E CONTINUAR RESPIRANDO NORMALMENTE.

Tá tudo bem acordar borocochô às vezes. Tá tudo bem sentir solidão. Tá tudo bem chorar no banheiro de saudades. Tá tudo bem ganhar peso. Tá tudo bem querer expulsar as crianças de casa às vezes. TÁ TUDO BEM.

Espero que eu possa ter traduzido nesse texto a angústia de muitos de vocês e que tenha trazido um pouco de motivação nesse momento difícil.

Do mais, fiquem bem, fiquem em casa, fiquem em segurança, lavem as mãos, usem máscara. Conte comigo se precisar. E se ame, acima de tudo.

Bêzu.