Gataiada!
Vamos a mais um post da série "vâmo polemizar a bagaça!"
Semana passada foi aprovado pela Comissão de Finanças o Estatuto do Nascituro. Até onde eu tô sabendo ainda falta a aprovação da Comissão de Justiça, mas não é o que importa. Já dizia o ditado "o que vale é a intenção".
Na minha humilde opinião, esse Estatuto é um insulto a todos os direito que nós mulheres levamos décadas para conseguir.
Se você ler o Estatuto (faça isso aqui), você chora de emoção, pois garante proteção de uma vida recém gerada, direitos à saúde, educação, alimentação e tantas outras coisas que já estão previstas na Constituição pra QUALQUER CIDADÃO brasileiro. Mas o ponto não é esse, os pontos são esses aqui ó:
"Art. 25 Congelar, manipular ou utilizar nascituro como material de experimentação:
Pena – Detenção de 1 (um) a 3 (três) anos e multa."
Já não tinham aprovado a pesquisa com células-tronco? A Medicina já não deu provas suficientes de como as pesquisas envolvendo essas células podem contribuir para o avanço na busca da cura de doenças? Vocês preferem morrer de câncer do que destinar uma célula pra isso, alegando que é uma vida gerada? Não que eu duvide que é uma vida, mas uma coisa é gestação a outra é pesquisa.
Mas eu não vou me estender muito nessa questão porque ela em si já é beeeeeem polêmica, então eu deixo pra outro post.
A verdadeira questão pela qual eu quis escrever sobre isso foi: criminalizar o aborto. Sim, se você abortar de propósito é crime. Vale ressaltar que abortos espontâneos também são investigados (como se perder um filho já não te causasse transtornos suficientes na vida).
Eu sei muito bem o que as religiões pensam disso, o que os valores morais de algumas pessoas pensam disso e o que eu penso disso e a conclusão que eu cheguei foi: eu, Bruna, se tivesse uma gravidez indesejada, não abortaria fossem as condições que fossem. Não sei se teria coragem. Entretanto, nem todas as mulheres do Brasil são Brunas e/ou pensam como eu e meus valores morais não podem interferir nos direitos de outras mulheres.
Esse raciocínio é como o Voltaire (iluminista, que pregava o Liberalismo, era contra à intolerância e etc, saiba mais sobre ele aqui) cansou de falar no auge do Iluminismo: "Eu não concordo com nada do que você diz, mas defendo com a minha vida o direito de você fazê-lo". Jamais me esqueci dessa frase desde a primeira vez que a ouvi/li. Ela tem guiado muitas opiniões na minha vida desde então.
Milhares de mulheres morrem todos os anos em decorrência de abortos clandestinos. Ai você pensa "ah, fez o filho agora aguenta!". Durante algum tempo eu pensei assim também, confesso e não me orgulho disso, mas quando a gente é adolescente e não tem noção de que o mundo é maior que a nossa realidade, a gente pensa feito idiota mesmo. Graças a Deus não demorou muito pra eu perceber que era branca, de classe média, de família estruturada, que se por acaso eu engravidasse em qualquer época da vida eu teria a minha família pra me apoiar e me ajudar no que fosse preciso pra que essa gravidez não fosse o pior dos fardos. E junto com isso eu percebi que a maioria das mulheres não tem esse privilégio. Que a realidade delas é bem diferente da minha. Que talvez essa gravidez indesejada pudesse destruir as suas vidas. Que elas, num ato de desespero, arriscam suas vidas em clínicas de abortos clandestinos porque o Governo não lhes dá o menor suporte pra fazer isso legalmente.
"Ah, Bruna, mas o Governo garante todos os Direitos dessa criança". Ótimo, garanta, SE A MÃE OPTAR PELO SEU NASCIMENTO.
O caso de estupro é o que mais me revolta: obrigar a mãe a ter o bebê é o mesmo que dizer "ah, estupros acontecem e quando acontecem o governo nos ajuda". Tá de sacanagem com a minha cara né?
"Caso o pai seja identificado ele será obrigado a pagar pensão". Eu não sei nem que palavras usar pra exprimir a minha revolta. "Pai"? Como assim, "pai"? Progenitor você quer dizer né? Pai é oooooouuutra coisa beeeem diferente! Levante a mão uma mulher estuprada que além de ter que gerar o fruto daquele terror ainda queira ter alguma espécie de vínculo com o estuprador? Isso no nosso país ideal onde criminosos são presos, claro. Pelo amor de Deus!
Foram décadas de mulheres lutando, morrendo, queimando sutiãs na busca pela igualdade (que ainda não temos em sua plenitude), ganhamos o direito ao voto, o direito de trabalhar fora de casa, direito ao divórcio, direito de ser mãe depois dos 30, direito a nossa independência financeira pra justamente perdermos o direito sobre nossos úteros? Sobre sermos ou não mães? Sobre o que faremos das NOSSAS VIDAS??? Isso pra mim é no mínimo um retrocesso. É querer colocar as mulheres novamente numa condição de "coisa que faz o que os outros esperam que ela faça".
Mais um esclarecimento: eu tenho perfeita noção do quão mais fácil é "prevenir do que remediar" uma gravidez e não penso que a legalização vai causar uma ideia generalizada de "ah, se engravidar, aborta ué...". Eu ainda não sei como funciona esse negócio de instinto maternal, mas imagino a dor que deve ser pra uma mãe, tendo conhecimento da existência daquele serzinho dentro dela, optar pelo aborto. O mínimo que ela poderia querer do Estado para o qual paga impostos é apoio e condições de fazer isso da melhor maneira possível.
Essa questão de criminalizar o aborto tem um pouco a ver com aquela história da homofobia (se você não leu meu post clique aqui). Tem gente que acha que se liberar o casamento gay então todo mundo vira gay. O aborto é a mesma coisa. A pessoa acha que se liberar o aborto o governo vai averiguar se a gravidez dela é indesejada e se o for obrigaria ela a abortar. Aaaiiii tem gente que passa mal da cabeça.
Além disso, esse Estatuto foi elaborado por dois homens (Osmânio Pereira e Elimar Máximo), ou seja, o que eles entendem de maternidade pra meter o bedelho no útero dos outros? Os meus amigos homens mais liberais que me perdoem, não estou generalizando mas um fato é: é muito fácil ser contra a liberação do aborto quando se é homem. Quando no caso de uma gravidez indesejada o máximo que tiver que fazer é pagar pensão e visitar nos finais de semana. E mesmo que você se case com a mãe da criança, quem deixará a faculdade é ela, quem terá que se desdobrar pra dar conta do emprego e de um filho é ela. E não você. Porque nessa sociedade que se diz igualitária, as mulheres podem trabalhar fora como os homens, mas os homens não podem dividir as tarefas domésticas com as mulheres.
Do mais, é o que eu disse: se você não quer abortar, gata, não aborta! Mas querer impedir que outras mulheres possam fazer isso em segurança é um pouco de egoísmo da sua parte, você não acha???
É isso, pessoal, divaguei e falei mais do que eu queria pra variar. Espero que tenham gostado de mais esse assunto polêmico. Aguardo comentários, besos!
1 palavra pra td isso: Banania
ResponderExcluirNossa bru nao tinha visto esse post...bom eu nunca faria um aborto, exceto em caso de estrupo ( tem que ser mti cagada...ser estrupada e ainda engravidar!).Existe um projeto ai que chama "mulheres pelo direito de devidir" tipo decidir se quer ou nao ter o bebe...mais eu acho que elas ja tiveram o direito de decidir...poderiam ter usado camisinha, tomado pilula etc....Porem, entretanto, todavia...foi como vc disse eu sou branca classe media, tenho familia...entao minha vida naoiria acabar se eu tibesse eu bebe...mais eu concordo com vc eu nao faço mais respeito quem faria....beijos
ResponderExcluirTem que ser muito cagada MESMO! Mas acontece com mais frequência do que nós branquelas de classe média imaginamos...
ResponderExcluirEu acho que cada caso é um caso. Se uma menina da minha sala engravidar eu acho que arrebento a cara dela, mas uma adolescente da favela é outra história. Só no mundo ideal que se tem educação sexual decente nas escolas e é conversado sobre isso em casa. Infelizmente, o assunto ser um tabu ainda dá nessas merdas..