quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Special for whom?*

Alô meu Brasil! Eu tardo, mas não falho.

Esse post foi inspirado numa publicação no face de uma amiga minha, Marina, que falava o seguinte "você pode trocar moda plus size por moda por exemplo". É isso mesmo que você leu. Tipo meme da Bela Gil.

E o papo é esse mesmo. Mas vamos começar do começo.

Esses dias ai eu dei um depoimento sobre a minha relação com a moda, que sempre foi bem conturbada, muito por conta do sobrepeso.
Eu era uma criança gorda, fui uma adolescente gorda e sou uma adulta gorda. Na infância e adolescência, entrar em lojas de roupa era um martírio, algo que me trazia um imenso desconforto e sofrimento. Primeiro porque dificilmente havia algo que me servisse. E segundo, se havia, eram roupas "de senhora", sem graça e sem estilo. Cada experiência comprando roupas nessa época foi traumatizante.
Como eu já contei no meu último post (que se você ainda não leu, vou te dar mais uma chance clicando aqui), meu amadurecimento passou por um árduo processo de autoaceitação, um exercício diário de amor-próprio e auto-estima. E esse processo teve um empurrãozinho da moda. Em resumo, essa história de "plus size" entrou em pauta num ramo feito por e para magros. Começaram a aparecer lojas especializadas e as fast fashion acabaram entrando na onda também e disponibilizando linhas exclusivas para as "mais cheinhas".

Legal, Bruna, inclusão, correto? ERRADO. O que eu percebi é que depois de criar a coleção plus size, as lojas não se vêem mais na obrigação de disponibilizar tamanhos grandes nas coleções "regulares". Ou seja, se você veste mais de 46, tem que entrar e ir direto na ala plus size, porque nas demais não haverá nada pra você. Desculpem, mas isso pra mim não é inclusão.
Além disso tem a questão dos tamanhos. Nas coleções regulares, os tamanhos máximos de roupa encontrados estão entre o 42 e o 44 (com uma dose de sorte). As coleções plus size começam no 48. Perceberam que há um limbo de mulheres nem magras o suficiente para as coleções regulares e nem gordas o suficiente para a plus size?
Prazer, Bruna, manequim 46.

E é nesse ponto do post da Mari que eu quero chegar. Por que temos que ser catalogados pelo tamanho de roupa? Por que a moda não é feita pensando em TODOS (e isso inclui o pessoal do tamanho PP/34 que eu também sei que tem uma dificuldade imensa de comprar roupas)? Por que simplesmente não tratamos tudo como "moda"? Por que se você é gorda tem que ir a uma ala exclusiva comprar roupa, como se tivesse uma doença contagiosa e não pudesse se misturar? Por que eu e minha colega que veste 40 não podemos ter a mesma blusa?

"Aaaaffeeee, mas começou falando que era ruim comprar roupa porque não tinha tamanho grande e agora que tem tá reclamando?" Se isso está passando pela sua cabeça possivelmente você é magro e não tem ideia do que eu estou falando e não entendeu o propósito desse post.

Demorou-se muito tempo pra perceberem que o pessoal que veste mais de 46 "também era gente" e se interessava por moda. Se vestir sendo gordo tem deixado de ser uma obrigação apenas de não sair pelado na rua, pra também ser o que a moda sempre deve ser: sua maneira de se expressar pro mundo. Se vestindo, você mostra sua personalidade e cria um estilo que te marca para aqueles ao seu redor. Democratizar a moda e permitir que os gordinhos também se sintam lindos com os corpos que tem é SENSACIONAL e é uma contribuição sem igual para o processo de autoaceitação que temos que enfrentar a cada dia.

Mas esse acesso deve ser ilimitado e não segregado.
Como a vida é uma constante evolução, não posso me conformar e achar que "ok, tendo uma ala pra gordo tá bom". Eu quero a loja toda, meu benhê. Teremos que caminhar muito para a inclusão plena, onde dos PPs aos EXGGs estaremos todos no mesmo balaio e nos misturando entre as araras. E da mesma forma como o "plus size" apareceu revolucionando a moda, tenho total esperança que isso vá acontecer também.

Por hora, independente do tamanho do seu manequim, continue praticando a difícil lição do amor-próprio, olhe-se no espelho e ache aquilo que vê lindo como é. Com todas as cicatrizes e marcas da sua história. É o melhor que você pode fazer por você. E quando somos melhores pra nós mesmos, somos melhores pro mundo.


É isso, gataiada. Um post ativista-desabafo-pra-te-fazer-refletir. Espero que tenham gostado.

Bêzu.

*do inglês "Especial pra quem?" ironizando a linha "Special for you" de uma rede de fast fashion destinada a mulheres plus size.

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