quinta-feira, 7 de março de 2019

Às vezes o Diabo vence.

Não, esse post não será sobre religião.

Na verdade eu acho que nem deveria ser necessário escrever sobre isso, mas né. As pessoas não se cansam de me surpreender.

Esse post será sobre algo bem mais simples: tolerância.

Carnaval bom é Carnaval com polêmica, não é mesmo?

A Gaviões da Fiel esse ano apresentou uma comissão de frente polêmica, numa mise-en-scène retratando a eterna batalha entre o Bem e o Mal. Se você não tem ideia do que eu tô falando, procura no YouTube, tem vários vídeos pra você assistir e ter a sua própria opinião sobre o assunto.
Foi só isso. A Comissão de Frente. O resto do desfile nem foi comentado, todos os holofotes estavam direcionados para o cara vestido de Satanás, batendo em Jesus e afrontando a família tradicional brasileira.
Pronto. Deu-se a merda.
Uma saraivada de críticas, saiu gente de todo bueiro da internet pra esculhambar com a escola. A alegação? Estão zombando da figura de Jesus. Um absurdo mostrar o Diabo "vencendo" a batalha.
Minha cara:
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É sério?
Primeiro de tudo, assista a representação até o final. No final o Bem vence, pessoal!! A Vida é dura, a gente apanha e sofre às vezes. Assim como o Jesus representado no desfile.
Segundo, o enredo, as alegorias, aquela história que é contada tem um autor, um idealizador. E a história que o desfile conta representa a visão desse autor sobre aquele tema. É como ler um livro e não gostar do final, se o autor gostou assim, o livro é dele e escreve o que quiser. Não gostar é seu direito. Esculhambar a escola, abrir processo, sugerir boicote, o cacete-a-quatro, não. O Carnaval, pasme você, não é uma celebração cristã. Ela teve sua origem na antiguidade, muito antes do Cristianismo ser uma hipótese e falando racionalmente ela é mais uma celebração "pagã" que sabiamente as religiões mais jovens - como o Cristianismo - adaptaram aos seus rituais. O que todas tem em comum é a representação do cotidiano por meio de alegorias e fantasias. Aceite isso e seja mais feliz.
Terceiro, - e você precisará ser forte para reagir a essa informação - nem todo mundo tem a mesma visão de mundo que você. E isso inclui a sua religião. Independente da sua fé (e eu me incluo nessa) o recado pra mim foi muito claro: nós enfrentamos o Diabo todos os dias. Todos os dias ele testa nossa coragem e a nossa fé. Temos que nos manter firmes pra não deixar isso nos dominar. Em momento nenhum eu como cristã me senti desrespeitada, ofendida ou motivo de chacota. Ouso dizer que poucas vezes vi o poder da fé tão bem representado.
E por último, - e agora é aquele momento que eu perco os poucos amigos que tenho - às vezes o Diabo vence. E sabe de quem é a responsabilidade? Nossa, só nossa.
Independente da fé que praticamos, Deus sempre é colocado como misericordioso, benevolente, onisciente e consciente de todas as nossas fraquezas.
Pra quem crê nessa versão dos fatos, apesar de toda sabedoria divina, Ele nos presenteou com algo crucial para nossa existência e aquilo que coloca sobre os nossos ombros a responsabilidade de deixar o Diabo vencer: o livre arbítrio. Esse mesmo, o que levou Adão e Eva a morderem a maçã e serem expulsos do Paraíso.
Quando nós não conseguimos nos colocar do lado do outro, o Diabo vence.
Quando um homem agride uma mulher porque acha que ela é sua propriedade, o Diabo vence.
Quando um pai e uma mãe renegam um filho porque ele é homossexual, o Diabo vence.
Quando um negro perde oportunidades simplesmente por ser negro, o Diabo vence.
Quando nós achamos que armar a população resolverá todos os nossos problemas, o Diabo vence.
Quando eu prefiro que uma semelhante morra em uma clínica clandestina, ao invés de dar a ela o direito a um aborto seguro, o Diabo vence.
Quando nos preocupamos mais com a cor da roupa de meninos e meninas do que com as reais questões dos direitos das minorias, o Diabo vence.
Quando eu acho que "direitos humanos é para humanos direitos", além de não ter entendido nada do que Jesus ensinou sobre amor, o Diabo vence, deita e rola.
Quando você é incapaz de reconhecer seus privilégios sociais e acha que se o seu amigo da favela não venceu na vida porque não quis, o Diabo vence, vence e vence.
Quando continuamos elegendo os mesmo corruptos, que continuam nos roubando e se safando na nossa cara, o Diabo venceu, vence e vencerá sempre.

E a culpa não é de Deus, da escola de samba ou da representação de Jesus tomando uma surra. É nossa e só nossa.
Nós crucificamos Jesus todos os dias nos deparando com o Mal e não fazendo nada sobre ele. Ou pior, agindo com suas diretrizes.
Nós preferimos ficar ofendidos com alguém que representa a nossa fé de uma maneira que talvez não nos agrade, mas continuar zombando de outras religiões, principalmente as de origem africana. Antes de apontar o dedo pra escola de samba vamos refletir o quanto somos intolerantes com o que é do outro e condescendentes com o que é nosso. E assumir a nossa culpa nessa batalha.

E como o ano só começa depois do Carnaval, FELIZ ANO NOVO!

Bêzu.


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